O cheiro que a chuva deixou foi-me tão nostálgico. Vivi tantos dias na chuva, não sabia nem do que estava lembrando. É tão estranho o modo que a chuva deixa tudo tão cinza. E agora é quase dezembro, e a chuva de dezembro me é a mais nostálgica.
Lembro dos meus aniversários na chuva, sempre chovia, lembro que meus olhos choviam também; não sei bem o motivo, deve ser algo do sótão da minha mente. Uma das melhores lembranças da chuva foi uma dança, um pouco desajeitada e tímida, foi um bom momento.
Às vezes tudo está tão sujo e aí vem ela, mostrando que se pode lavar tudo. E onde eu estaria agora se não pudesse me lavar?
Sinto a falta de algumas gotas, elas já se evaporaram. Esse ciclo é tão triste, mas ela irá voltar e novas lembranças talvez evaporizarão as velhas.
Eu queria tanto voltar aos anos que eu ainda era pequena demais para entender o porquê. E saber.
Ainda me sinto em um labirinto infernal, e eu peço chuva, às vezes eu paro e respiro, me sufoco, não queria estar aqui. Chova novamente, chova! E é tão difícil dizer. Me calo e peço que chova, mas se eu voltar molhada para a casa minha mãe vai brigar.
Que a água me afogue então, me sinto tão morta. Talvez eu devesse parar. Eu não sei, eu só choro, sempre choro. Me sinto tão só. É dezembro e eu queria ser feliz. Me sinto tão triste. Porquê? Sempre chove, mas nunca é o bastante. Então cale as portas do sótão. "Fique quieta garota, você já é uma mocinha!" Me sinto tão só. Queria ser um menino. Meninos podem ser idiotas, porque homens são idiotas. Mulheres são oportunistas e meretrizes, e uma meretriz bem sucedida sabe se comportar.
Porque eu nunca fui bela? Porque sempre me repreendem? Eu queria ser como elas. Eu queria ser uma aprendiz de meretriz. Uma escreva de elogios e espelhos, eu só queria ser bela. Mas só chove no meu aniversário. E ninguém se lembrou. Acho que me tornei uma escrava conformada. "É dezembro, lá vem o natal!" Eu só queria que alguém se importasse. É dezembro e eu estou chorando sozinha no meu aniversário, eu não sou bela, eu não sou uma garotinha doce. Estou olhando a chuva, acho que é a coisa mais linda que já me disseram.
É, ela se lembrou, está sempre aqui, em todos os meus aniversários, a chuva nunca se esquece que é meu aniversário. Eu estou chorando com a chuva. É dezembro e ela se lembrou do meu aniversário.
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