Quem bate à porta?
Entrou sem ser convidado
Já se sente em casa, o estranho
Pede uma xícara de café
Diz que veio para ficar
Pôs os pés sobre a mesa
Jogou o casaco no chão
Me chamou intimamente
De apelidos que não tenho
Escolheu discos que detesto
Me tirou para dançar
Suas mãos escorregavam demais
Seus olhos eram incêndios
Disse que eu era muito recatada
E deveria usar vestidos de festa
Tirou as fechaduras das portas daqui de casa
Rasgou as cortinas, quebrou os vidros das janelas
Tirou zilhões de espelhos da mala
Disse que narcisismo era a tendência do século
Falou que era para o meu bem
Que eu não me amava o suficiente
Jogou fora todos os meus biscoitos
Falou que a frutose me mataria antes dos 30
Pintou minhas unhas e lábios de vermelho
Cortou os meus cabelos
Se livrou dos meus gatos, era coisa de bruxa
Segundo ele... NÃO!
Primeiro ele, primeiramente ELE, sempre!
Era o exemplar modelo de quem eu deveria ser
Um homem de visão
Um homem de garras
Um Homem!
Me deu livros de autoajuda
Que era para eu me educar
Ser transcendente, de outra frequência de universo
Eu me perguntei onde está a minha casa
Me encontrava num labirinto de espelhos
Com um rosto que não reconhecia
Num vestido que não escolhi
Com a cara pintada como uma garota que não sou
Na minha porta havia uns cem pares de mãos
Todas se ofereciam para me ajudar
A me transformar, me libertar, me desabrochar
Na exata cópia delas.
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