sábado, 12 de novembro de 2011

Os leões

  Tenho procurado inspiração na chuva, e desde que pretendi observá-la, ela cessou. Olhei os pingos caírem no chão, os últimos. Então vi o sol brilhar com toda sua força num horizonte distante, e, tive medo. Não senti seu calor, mas sabia que ele estava lá.
  Observei que não havia mais nada onde eu estava, mais nada que tivesse algum valor. Olhei a dispensa e estava tão vazia quanto meu coração. Então sai para caçar algo para o jantar, e tive medo; morri de fome na selva, observei os leões me devorarem sem me mexer. A dor para de incomodar com o tempo.
  Agora sou um espirito livre e sem fome. Mas meu mundo continua vazio. Vaguei por cima de toda humanidade e vi que todos estavam vazios e passavam fome. Tentei avisá-los dos leões que habitavam por ali, mas estavam todos presos em suas máquinas de diversão. Eu vi todos escravos, e ninguém conseguia ver que estavam vazios.
  Então flutuei por corpos sem vidas. E já não havia ninguém. E seus espíritos estavam mortos também, as máquinas tinham os devorados enquanto faziam os corpos sorrirem. Eu estava morta, mas era a única coisa viva ali. Procurei algo para preencher me, em vão.
  Depois de anos vi uma criança pequena que brincava com os predadores. Corri para avisá-la que poderia morrer, mas os leões eram seus amigos e eles me chamaram para a ceia. Estavam calmos e serenos, já não havia mais humanos para infernizá-los. Por anos eles foram minha família.
  Todos morreram, aos poucos. E apenas a criança, agora adulta, estava comigo. E depois que ela se tornou como eu, fomos para longe. Subimos por todas as montanhas e vimos os mares... Mas ela quis partir também.
  E já estava só, mas nunca mais estive vazia. Eu vi a Terra ser destruída sozinha. E fiquei num imenso vácuo por dias, até que resolvi partir também. Estava com muito medo do que encontraria. Olhei para trás e me despedi da escuridão, então fui ao desconhecido.
  Cheguei lá e vi uma bela imensidão quase desabitada. Juntei me aos que podia ver. Fechei meus olhos e senti falta de minha casa. Chorei ao lembrar que queria ter salvado a todos e ao lembrar dos outros sonhos que nunca realizei. Nunca me senti em casa ali. Mas o ar era leve e tinha leões calmos comigo...

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